Umas das coisas que eu nunca consegui entender é o ódio que meio mundo nutre contra a série animada Pokémon . Inclusive eu acredito piamente que 90% das pessoas que metem o pau no desenhinho nunca assistiram a um episódio do começo ao fim ou se assistiram não prestaram atenção. A verdade, peregrino, é que Pokémon talvez seja o desenho infantil mais bem bolado do fim dos anos 90 e dos início dos 2000.
Calma, calma! Não feche o browser ou escreva um hate mail! Deixe eu me explicar antes! Meus argumentos são variados, mas vamos por partes.
Pra quem nunca assistiu, Pokémon conta a história de um moleque chamado Ash que vive em um mundo aonde os animais são criaturas com poderes especiais e inteligentes, chamadas de Pokémons porque podem ser capturadas com uma engenhoca chamada Poke-bola que permite que sejam carregadas no bolso. Pra quem também não sabe Pokémon é o ingrish pra Poket Monsters, ok? Então o ponto de partida é esse, Ash, alguns amigos e seu Pokémon de estimação, um Pikachu viajam de cidade em cidade procurando mestres Pokémons que possam ensinar a Ash como treinar seus bichinhos.
A história é comum em obras japonesas: um protagonista extremamente jovem que tem que enfrentar as vicissitudes da vida e se tornar o melhor do seu meio. No caminho ele enfrenta provas terríveis, mas o que pra nós ocidentais pode parecer um absurdo de crueldade com um pirralho de 10 anos pros japas é completamente normal, esse tipo de coisa está entranhado no imaginário coletivo nipônico a anos.
Os episódios do desenho estão cheios de referências completamente surpreendentes. Já presenciei episódios que parodiam Casablanca ou mesmo um que brincava com os faroestes do Sergio Leone, inclusive com a participação de um personagem que tinha a cara e a voz áspera do Clint Eastwood, vestido com o poncho tradicional do “estranho sem nome”. Outro ponto que eu considero muito positivo é que o desenho nunca se leva muito a sério. Existem piadas completamente nonsense (como a gangue Yakuza de Pokémon s que faz parte do passado negro do Bulbassaur) e outras sacadinhas metalingüísticas interessantes. Em um episódio, por exemplo, o membro de um grupo inimigo pensa em uma tática nova para caputrar Pikachu e se pergunta, “Porque não usamos isso logo no princípio?”. A resposta que recebe de seu companheiro de equipe é algo como “Seu imbecil! O episódio tem meia hora, temos que enrolar um pouco!”
Artisticamente Pokémon também não deixa nada a desejar. Todos os personagens são desenhados com cuidado, a animação é nos trinques e os bichinhos são desenhados no melhor estilo kawaii japonês, que é o nome desse modo de desenho “bunitinho” que todo mundo conhece. Faço uma pausa para uma citação de Walbercy Ribas, diretor do desenho “Grilo Feliz” que é um longa de animação brasileiro em vias de ser lançado. Ainda não vi, mas parece emular qualquer coisa produzida pela Disney.
“— A TV exibe desenhos com absoluta falta de qualidade. “Pokémon” é banal, com cenários pobres e poucos movimentos. Não há como competir com a China, lá a mão-de-obra é baratíssima.”
Pokémon é um desenho produzido no japão, mas vamos ignorar isso. Banal não é, de jeito maneira. Economia de celulóide acontece várias vezes em quase todos os desenhos japoneses feitos para a tv, eu particulamente não me importo com isso o resultado final sempre me parece bastante agradável. Nada que possa se comparar a economia dos desenhos da Hanna Barbera dos anos 60, aonde um personagem SEMPRE aparecia no mesmo ângulo e só mexia a boca. Mesmo porque essa economia nos desenhos japoneses acontecem com a utilização de desenhos estáticos para representar cenas que tomariam muito tempo, como multidões e coisas do tipo. Não me incomoda mesmo e ainda podem se defender dizendo que é apenas um estilinho. E os movimentos não são pobres, muito pelo contrário. Esse doente nunca assistiu o desenho, pode apostar peregrino.
E agora o aspecto mais perverso mas não menos genial: O Marketing. Pokémon é o produto perfeito. O pior pesadelo dos pais incautos. Desde a identidade visual muito bem trabalhada até o desenho de cada monstrinho tudo é feito de maneira a ser vendido da melhor maneira possível. Você pode colocar Pokémons em qualquer lugar, lancheiras, mclanches, videogames (o desenho nasceu de um), tudo pode ser adaptado a marca. O aspecto colecionável dos 500 bichinhos é levado aos extremos. Como, por exemplo, fazer a criança decorar o nome de cada um deles? Simples: Pokémons só conseguem falar seu próprio nome, repetindo ele pelo menos umas 50 vezes por episódio, cada espécie com sua própria língua baseada na pronuncia repetida de uma única palavra com entonações diferentes. É por isso que eu fico feliz por cada centavos que eles ganham. Os japas merecem, mandaram muito bem.
Pra finalizar: Qualquer desenho que provoque ataques epiléticos em criancinhas de idade pré-escolar merece todo meu respeito.